

Conforme o superintendente Regional do Serviço Social da Indústria (Sesi RS), Juliano Colombo, é a partir da inclusão da pauta na agenda de discussão da alta direção das empresas, como prioridade e sendo vista como uma estratégia corporativa, é que o novo cenário, que aponta um mercado de trabalho composto por pessoas em sua maioria 60+ e mulheres, pode ser implementado nas organizações.
Colombo palestrou recentemente na RA CIC abordando sobre a transição demográfica no mundo, no Brasil e no estado e seu impacto direto no futuro do trabalho, embasado em dados do IBGE.

O ControlMais aproveitou a oportunidade e conversou com o executivo para saber como as organizações devem ingressar no processo dessas transformações preparando-se para um futuro que se molda desde já, no presente.
Confira!
ControlMais – Qual é a faixa etária da força de trabalho do futuro e em quanto tempo será constatado essa nova realidade?
Juliano Colombo – Nós teremos no futuro todas as faixas etárias, o que muda é a lógica da proporção, visto que estão nascendo menos crianças. Então, o que nós teremos na sociedade é essa média maior e, consequentemente, o trabalho vai ser de pessoas na média com maior idade. Sempre com gente mais nova entrando, mas também, gente com mais idade permanecendo mais tempo. Esse público compreende em sua maioria 60+ e mulheres. Tem uma questão da aposentadoria. Se falava no passado, “vou trabalhar 25, 30 anos para me aposentar”. Hoje não, a gente vai ver as pessoas tendo que trabalhar pelo menos 40, 45, 50 anos para se aposentar. E isso, naturalmente, vai aumentar a média da faixa etária das pessoas que estão no trabalho.

ControlMais – Como as corporações podem colaborar para a chegada desse momento de forma saudável para as pessoas e sustentável para os negócios?
Juliano Colombo – Primeiramente, é trazer essa pauta para a discussão estratégica. A educação, que é um fator importante, já vem mudando de patamar e sendo objeto de discussão empresarial. Já a pauta “pessoas” e as questões relacionadas à pessoa, à saúde, ao cuidado, não são debatidas na alta direção. Muitas vezes, principalmente em empresas maiores, esses assuntos acabam sendo limitados a área de RH, de saúde e segurança, de área de responsabilidade social. O que as empresas precisam entender, que isso é uma pauta estratégica, que o futuro dos negócios está em jogo se a gente não tiver pessoas que têm uma longevidade produtiva. Não é só de produção por produção, vamos viver mais e temos que ter mais tempo apto para fazer aquilo que a gente queira fazer.
Por isso que eu entendo que é um assunto que precisa ser do empresário, do conselho, do diretor da empresa.
ControlMais – Como essa força de trabalho do futuro deve se adequar para atuação produtiva na longevidade?
Juliano Colombo – Praticamente ela está pronta, só vai ficar mais tempo desenvolvendo sua atividade. Obviamente a gente tem as tecnologias, a gente tem a inteligência artificial, e as atualizações serão cruciais. Já é assim hoje em dia. Estudos do Polo Econômico Mundial nos mostram que o que a gente sabe hoje, em quatro, cinco anos, a metade já vai ter mudado. E a inteligência artificial da forma como ela se apresenta hoje, muda muito mais rápido. Então os modelos de educação vão ter que mudar, a escola vai ter que se adaptar a isso.
Já as empresas precisarão, cada vez mais, olhar para dentro das suas organizações, para as pessoas que estão lá. Até porque teremos uma limitação de número de pessoas. No caso do Rio Grande do Sul, estamos vivendo quase uma questão de pleno emprego. Ao mesmo tempo, se perguntarmos para os empresários, todos vão dizer que está faltando gente. Então, o caminho é trabalhar em uma reeducação das pessoas que estão na empresa, em uma requalificação, principalmente da geração mais velha, de inserí-la no mundo digital de forma definitiva. É algo fundamental, que já afeta a atualidade. Nós estamos falando de futuro, mas a qualificação, a educação, são fundamentais para garantirmos que a maior parte das pessoas estejam aptas a trabalhar, a produzir, a entregar ao longo do tempo.
ControlMais – Em sua palestra na RA CIC, mencionaste sobre a política de cuidado. Como ela se insere no contexto?

Juliano Colombo – É algo que a gente vê inclusive como uma tendência mundial nas empresas quanto a olhar para algo que talvez durante muito tempo não se via como parte do ambiente de trabalho. Não existe mais aquela situação de problemas do cotidiano da pessoa “ficar fora” da empresa ou até a porta do trabalho. É fundamental oferecer políticas de cuidado que permitam aos funcionários conciliarem suas responsabilidades profissionais com suas responsabilidades pessoais, para que possam dar atenção as suas crianças, aos idosos e às tarefas domésticas.
Segundo dados da OIT, nós temos 75% das tarefas de cuidados associadas a mulher. É uma questão cultural de que quem tem que cuidar da casa, quem tem que cuidar da criança, do idoso, de quem está doente, é a mulher. Mas, se a gente pensar que a sociedade será mais feminina e já está faltando gente, nós precisamos inserir a mulher de forma definitiva no mercado de trabalho. E não pode ser uma questão de inclusão, de ter cota. O futuro do trabalho depende de uma inserção feminina mais efetiva e isso vai fazer com que as empresas olhem, e terão que, inclusive, criar condições para os próprios pais poderem exercer seu papel, porque aqui nós estamos falando de um equilíbrio entre homem e mulher, de políticas públicas que vão precisar ser influenciadas para que o sistema público dê conta de absorver também. Escutar, entender as pessoas e a realidade delas será e é indispensável.
Tem limitações? Tem. Tem limitações legais que vão precisar ser mudadas também. Mas tem muita ação que talvez a empresa possa fazer hoje só pelo fato dela escutar a realidade dos seus funcionários. Muitas vezes, a pessoa só está precisando mudar de turno ou de uma flexibilidade maior para que possa dar conta do filho, dar conta do pai que é idoso.
ControlMais – Que recado o Sr. deixa para que a classe empresarial comece a trilhar esse caminho em direção ao novo cenário da força de trabalho?
Juliano Colombo – Em primeiro lugar, é que a gente não pode ter lado nessa discussão. Isso não é um assunto que tem lado, é um assunto que são fatos. Nós trabalhamos com estatísticas, com dados. Se fala muito hoje no meio empresarial em gestão por dados, então esses assuntos também precisam ser feitos em gestão por dados.
Incentivo os empresários que comecem a se inteirar mais sobre o novo cenário, comecem a ler, a se informar por meios oficiais, por entidades sérias que trazem os assuntos e coloquem como pauta da sua discussão nos meios onde transita, numa associação de classe, numa Câmara de Indústria e Comércio. Comece a debater esse assunto e a ver dentro da sua realidade como podem se adequar.
Reflitam, como a gente está olhando para as pessoas? Como estão as políticas públicas? O que eu enquanto empresário posso influenciar o prefeito, a Câmara de Vereadores. Olhe para isso, para que mude a lógica de políticas públicas, que vão ter que olhar para o idoso também, vão ter que olhar para criar condições para que as pessoas tenham longevidade saudável.
Então o meu recado é esse, comecem a colocar essa pauta como prioritária, porque eu acredito que no momento que se torna prioridade, a gente abre a mente para algo que talvez a gente não estava dando atenção, e naturalmente virão as conclusões, uma conscientização maior. E as ações são consequência disso.
Assista a RA CIC com Juliano Colombo ➡️ Demografia, cuidado e o futuro do trabalho
Fotos: Júlio Soares/Objetiva