

Artigo | Hana Witt
Pesquisas mundiais sobre mulheres na gestão de empresas familiares evidenciam a naturalidade com que elas assumem cargos estratégicos. Na Serra Gaúcha não é diferente. O Instituto de Desenvolvimento da Empresa Familiar (IDEF) realizou um estudo que, dentre outros dados gerais sobre famílias empresárias da região, apontou que 62% das empresas entrevistadas têm mulheres em cargos de gestão, muitas delas já assumindo os negócios como sucessoras de seus pais, inclusive.
Existem vários casos em que a filha é o braço forte do fundador, seguindo naturalmente os passos do pai. O que prevalece são a competência, a confiança e o comportamento alinhado aos valores e princípios do fundador e da empresa. Geralmente as questões de gênero, no âmbito familiar, ficam em segundo plano.
No entanto, algumas filhas assumem o negócio da família pelo companheirismo e cuidado que têm com seus pais ou pela responsabilidade com o legado, mas com o passar do tempo, se percebem distantes de seu propósito pessoal ou de suas verdadeiras competências profissionais.
Deixar o negócio da família para trás e seguir o seu sonho nem sempre é uma decisão fácil, exige um processo de autoconhecimento e intenso diálogo familiar. Talvez o maior desafio de uma herdeira está justamente em descobrir seu verdadeiro propósito e suas expectativas profissionais, não se deixando dominar pelas emoções nem pelos papéis que possam ser impostos pela família.
Porém há casos em que o pai não vê a filha assumindo o comando dos negócios, a chamada “filha invisível”. Essa condição, gera um desconforto que precisa ser esclarecida no ambiente familiar, são conversas por vezes difíceis mas que precisam ser trazidas à tona. A filha, uma vez que deseje o cargo, precisará lutar pelo seu espaço ao mesmo tempo que precisará compreender as razões pelo qual o pai não a percebe na função.
Na maioria dos casos, a “filha invisível” não está relacionada a questões de gênero ou competências e sim ao desejo de proteção e cuidado do pai com a filha. Pois o pai, ao viver os desafios e as responsabilidades do cargo de comando, não deseja para sua filha a mesma vida, as pressões e o tempo de dedicação que esta posição demanda.
Todas essas possibilidades exigem diálogo, amadurecimento da família e uma relação de confiança e cumplicidade. São necessários consenso, muitas vezes incluindo os irmãos, para que a filha ocupe a função que realmente deseja, sem exclusões incoerentes ou assumindo papeis por pressão familiar. Mas, para além do diálogo, é preciso planejar e esclarecer as regras do processo de sucessão entre todos os envolvidos, considerando sempre a harmonia familiar e a longevidade do negócio.

Hana Witt é engenheira e professora, é especialista em Governança Corporativa e Familiar. Certificada como Conselheira de Administração e sócia ativa do IBGC. Possui formação internacional no Programa Iberoamericano para Consultores de Empresas Familiares em Barcelona. Tem certificação em Governança Corporativa e Familiar pela Fundação Dom Cabral e IBGC. É Lead Assessor em Gestão de Compliance. Graduada em Engenharia Química, tem Mestrado em Engenharia de Produção (UFRGS) e Especialização em Gestão de Projetos (FGV)