

Ao internalizarmos que uma cidade boa para empreender é uma cidade boa para viver, compreendemos a força e a urgência de investir em ecossistemas de inovação
Como você se sente lendo os seguintes dados?
– 47% dos jovens brasileiros de 15 a 29 anos desejam morar fora do Brasil, em busca de melhores oportunidades de vida e de emprego, segundo pesquisa de 2021 divulgada pela FGV Social.
– 61% da população carcerária do Rio Grande do Sul tem até a 4ª série e 38% tem de 18 a 29 anos, de acordo com dados apresentados pela Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul em 2022.
Ao ver estes números reunidos, pergunto-me: que futuro estamos deixando para os jovens? Estamos investindo em qualificação profissional, em oportunidades de geração de renda, na retenção de nossos talentos? Afinal, compreendemos que investir em inovação é abrir possibilidades de transformações sistêmicas e interligadas?
Foi com essas perguntas em mente que realizei uma palestra na CIC de Caxias do Sul, em julho deste ano, a uma plateia de empresários e comerciantes que também se perguntava o mesmo. O tema que guiou minha fala foram os desafios da qualificação profissional para o desenvolvimento de ecossistemas de inovação. Portanto, como retemos nossos talentos? Qual é o retorno da inovação? Afinal, ciência e tecnologia são fundamentais – mas como mostramos de fato o retorno positivo que o investimento nessas áreas traz à sociedade? Foi um momento de troca presencial muito rico, e quero seguir desmembrando o tema neste artigo.
A qualificação profissional e a retenção de talentos são desafios fundamentais e latentes para o desenvolvimento de ecossistemas de inovação, que perpassam questões estruturais e culturais. Primeiro, porém, é preciso compreender a lógica do conceito de ecossistemas, que utilizamos para descrever o ambiente propício à disseminação e prosperidade da inovação.
Ecossistema diz respeito a algo que é colaborativo – como é o caso da inovação. Assim como em ecossistemas da natureza, em que cada parte é responsável por uma tarefa fundamental ao todo, os ecossistemas de inovação funcionam de maneira similar.
A coletividade é mais criativa, inteligente e inovadora do que o indivíduo. Assim, um ecossistema de inovação consiste na cooperação de atores – iniciativas pública e privada, academia e sociedade civil –, atuando em um mesmo território com objetivos comuns, de forma complementar, interdependente e em equilíbrio.
Considerando que questões comuns surgem de forma local, a regionalização de ecossistemas de inovação é um passo determinante para que eles funcionem de forma eficiente. O Rio Grande do Sul já venceu este primeiro desafio. Para fins de aplicação de políticas públicas, foram reconhecidas oito regiões coerentes entre si, que deram origem a oito ecossistemas regionais de inovação. Com atuação especializada nos desafios locais, o ecossistema de inovação gaúcho é fortalecido como um todo.
O próximo desafio trata do que temos de mais importante: as pessoas. A inovação necessita de talentos e de conhecimento para acontecer. Em uma equação simples, investir em qualificação de pessoal impacta diretamente no desenvolvimento socioeconômico de uma região, com influência positiva em indicadores relevantes, como o Produto Interno Bruto (PIB). Com esses investimentos, é possível sanar as lacunas que geram os índices alarmantes compartilhados no início deste texto. Investir em inovação é pavimentar um caminho de longo prazo focado no desenvolvimento pujante do nosso estado.
Outra pergunta que ouço com frequência, a respeito de inovação, ciência e tecnologia, é a seguinte: mas o estado do Rio Grande do Sul tem potencial, tem conhecimento, tem vocação para esses eixos? Tem, e muito!
O RS é responsável por 11,5% da produção científica do país, possui o 2º maior percentual de doutores na população brasileira e o 4º maior em pós-doutorado. São 141 Instituições de Ensino Superior, 43 incubadoras, 30 Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) e 16 parques tecnológicos. Em termos econômicos, o Rio Grande do Sul representa o 4º maior Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Mesmo com números impressionantes quando se trata de inovação, ciência e tecnologia, ainda “patinamos” para reter nossos talentos. Isso acontece porque, além de estrutura adequada para formação e educação, é preciso que se ofereçam boas oportunidades de emprego e crescimento profissional, infraestrutura nas cidades, segurança e bem-estar.
De acordo com dados da UNESCO, apresentados em 2017, o Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em P&D (pesquisa e desenvolvimento), enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 2,4%. Israel e Coreia do Sul, por sua vez, ultrapassam os 4%.
Todas as vezes que tenho oportunidade de falar em público, repito a seguinte máxima: “Cidade boa para empreender é cidade boa para viver”. Um empreendedor busca não somente condições adequadas para abrir e prosperar um negócio, mas um ambiente que acolha o ser humano de forma plena, oferecendo qualidade de vida. A inovação cria o futuro que queremos e precisamos.
A boa notícia: investir em inovação é, de forma concomitante, aumentar qualidade de vida. O impacto no crescimento econômico resultante do aumento nos gastos públicos em áreas selecionadas (em estudo com a média dos países do G20), é o seguinte: a cada 1% de aumento no investimento em CT&I, há um crescimento econômico de 9,92%, em comparação a 0,3% na saúde, 0,25% na educação, 0,03% em defesa e 0,01% em infraestrutura.
Peter Drucker, autor de gestão e empreendedorismo bastante citado, escreve: “A melhor maneira de prever o futuro é criando-o”. A frase, tão simples quanto impactante, agora está até estampada em camisetas de uma grande rede de fast fashion – sinal dos tempos que estamos vivendo, em que inovação, startups e conceitos de empreendedorismo já povoam o vocabulário da geração mais jovem.
Essa geração anseia por oportunidades. Que saibamos criar esses espaços de desenvolvimento por meio da inovação, para reter talentos e prosperar cidades, regiões e nosso estado. Os números não mentem, e os desafios podem ser transpostos.
Alsones Balestrin
Secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul